Por Que o Maracujá se Chama "Passion Fruit" em Inglês?
- Leo Almeida

- 30 de jul.
- 4 min de leitura

Uma história de fé, botânica e colonização que começa aqui no Brasil
A Pergunta Que Todo Brasileiro Faz
Quando um brasileiro aprende inglês e descobre que o maracujá se chama passion fruit - "fruta da paixão" - a reação natural é uma mistura de surpresa e curiosidade. Paixão? Que paixão? A fruta que relaxa, que a vovó colocava no suco para acalmar os netos, tem um nome tão dramático em inglês?
A resposta envolve missionários jesuítas, a Paixão de Cristo, uma flor extraordinária e uma das histórias mais fascinantes da história natural das Américas.
Primeiro: O Que Significa "Paixão" Aqui?
O ponto mais importante e que confunde muita gente é que a palavra "passion" neste contexto não significa amor romântico. Em inglês, assim como em português antigo e no latim eclesiástico, "passion" vem do latim passio, que significa sofrimento ou martírio.
A Paixão de Cristo (The Passion of Christ, em inglês) é justamente o termo usado nas tradições cristãs para se referir ao período de sofrimento, tortura e crucificação de Jesus antes de sua morte. É nesse sentido, o de sofrimento sagrado, que a palavra aparece no nome da fruta.
Portanto, passion fruit não é a "fruta do amor". É, literalmente, a fruta da Paixão de Cristo.
A Flor Que Encantou os Missionários

A história começa não com a fruta em si, mas com a flor do maracujazeiro, a passiflora, uma das flores mais elaboradas e únicas da natureza.
Quando os missionários jesuítas e franciscanos espanhóis e portugueses chegaram ao Brasil e à América do Sul nos séculos XVI e XVII, ficaram absolutamente encantados com essa flor. Mas o que realmente os impressionou não foi apenas sua beleza: foi a semelhança que eles enxergaram entre as partes da flor e os instrumentos da Paixão de Cristo.
Os missionários católicos dos séculos XVI e XVII chamaram a flor de Flor Passionis ou Flor de las Cinco Llagas -"Flor das Cinco Chagas" - por associar sua estrutura às cinco feridas de Cristo.
Para eles, a flor era um presente de Deus: uma ferramenta visual perfeita para catequizar os povos indígenas, que não falavam as línguas europeias. Com a flor na mão, era possível contar toda a história da Crucificação.
A Flor Como Catecismo Visual
A estrutura da passiflora é tão complexa e rica em detalhes que os missionários encontraram símbolos religiosos em praticamente cada parte dela. Veja a leitura simbólica que faziam:
As pétalas e sépalas (10 ao total) Os dez elementos externos da flor: cinco pétalas e cinco sépalas, representavam os dez apóstolos fiéis, excluindo São Pedro, que negou Cristo, e Judas, que o traiu.
Os filamentos da coroa (corona) Os filamentos radiais que formam o anel característico da flor, que podem chegar a mais de cem, representavam a coroa de espinhos usada por Jesus.
Os três estigmas Os três estigmas no topo da flor, cada um com uma cabeça arredondada semelhante à cabeça de um prego, simbolizavam os três cravos usados para fixar o corpo de Cristo na cruz.
As cinco anteras As cinco anteras representavam as cinco Chagas Sagradas, as feridas que Jesus recebeu durante a crucificação: quatro pelos pregos e uma pela lança.
As gavinhas (tendrils) As gavinhas sinuosas da planta representavam os chicotes usados durante a flagelação de Cristo.
A coluna central A coluna central da flor representava o pilar onde Cristo foi amarrado e açoitado.
A cor púrpura A coloração predominantemente roxa da flor também era significativa: o roxo é a cor litúrgica da Quaresma, o período de penitência que antecede a Páscoa na tradição católica.
Para os missionários, era impossível que uma flor com tamanha riqueza simbólica fosse coincidência. Eles a interpretavam como um sinal divino de que aquelas terras estavam destinadas à evangelização cristã.
O Registro Histórico
A primeira documentação histórica do simbolismo da flor da Paixão foi feita pelo frade agostiniano mexicano Emanuel de Villegas, que relatou e ilustrou a descoberta na Europa em 1610. A partir daí, a flor se tornou conhecida no mundo inteiro como Passiflora, palavra que vem do latim passio (paixão/sofrimento) e flos (flor).
E o Nome "Maracujá"? De Onde Vem?
Enquanto os europeus nomeavam a planta com base em sua teologia, os povos indígenas do Brasil já tinham um nome para ela há muito mais tempo.
A palavra "maracujá" é de origem tupi-guarani e significa "alimento que se toma de sorvo" ou "alimento em forma de cuia", uma referência direta à forma como a fruta é consumida: abrindo e sugando a polpa.
As primeiras referências ao gênero Passiflora foram feitas no século XVI, como sua citação na obra Tratado Descritivo do Brasil, de 1587, na qual o português Gabriel Soares de Sousa fez referência ao maracujá como uma planta com múltiplas potencialidades alimentares, ornamentais e medicinais.
Ou seja, temos dois nomes para a mesma planta nascidos de perspectivas completamente diferentes:
Maracujá → o nome indígena, prático e descritivo, baseado em como se come a fruta
Passion fruit → o nome europeu, teológico e simbólico, baseado no que os missionários enxergaram na flor
Uma Curiosidade Sobre o Brasil
O Brasil não é apenas o berço do maracujá: é também seu maior produtor mundial. A produção brasileira de maracujá é de aproximadamente 736 mil toneladas por ano, o que representa cerca de 70% da produção mundial, conferindo ao Brasil o status de maior produtor e consumidor mundial.
Então há uma ironia encantadora nessa história: a fruta que os missionários europeus batizaram com um nome carregado de teologia cristã é originária justamente das terras onde esses missionários chegaram para evangelizar. O maracujá é, em essência, uma fruta brasileira com um nome inglês que conta a história da chegada do catolicismo europeu à América.



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